Não fui ao Beira-Rio naquela noite. Assisti em casa, no sofá, com meu filho do lado. E hoje, vinte anos depois, acho que ainda bem que foi assim. Porque aquela noite eu não dividi só com uma multidão de estranhos — dividi com uma pessoa específica, que carrego comigo até hoje.
A gente não tinha só uma partida pela frente naquela noite. A gente tinha quase um século nas costas. Desde 1909, um punhado de rapazes recém-chegados de São Paulo bateu numa porta em Porto Alegre e ouviu que não servia. Não pela falta de talento, mas por não ter o sobrenome certo — e foi dali que o Inter tirou seu jeito de existir, provando coisa pra quem duvidava. Os Poppe não fundaram só um clube naquele dia. Fundaram um jeito de encarar desprezo e virar identidade.
E antes de qualquer bola rolar, o próprio estádio onde aquilo ia acontecer já carregava essa mesma teimosia. Não tinha dinheiro suficiente pra erguer o Beira-Rio, e o povo, em vez de desistir, apareceu com tijolo debaixo do braço. Gente que nem sabia se um dia ia ver aquilo virar palco de título nenhum, suando pra erguer as paredes de um sonho que ainda nem tinha nome. Eu contei isso pro meu filho enquanto esperávamos o jogo começar, tentando explicar pra ele por que aquele estádio na tevê significava tanto mais do que um prédio de concreto.
Quando o juiz apitou o início, meu peito já doía. A gente já tinha o resultado do Morumbi guardado no bolso — 2 a 1, com dois gols do Sobis calando um estádio inteiro —, mas isso não servia de conforto nenhum. Vantagem de time que já perdeu tanta coisa boa não é conforto, é ansiedade disfarçada. O adversário, além de tudo, era o time que tinha acabado de ganhar a Libertadores e o Mundial. Não tinha margem pra bobeira.
O Fernandão abriu o placar, e eu levantei do sofá com meu filho no colo, gritando os dois juntos sem nem combinar. O cara que carregava aquela braçadeira não era só um capitão bom de bola. Era alguém que tinha crescido junto do clube até virar o próprio símbolo dele, carregando nas costas o peso de décadas sem nunca reclamar.
Aí o São Paulo empatou, e o silêncio que caiu na nossa sala foi pior que dor física. Foi aquele silêncio de quem já sabe como essa história costuma terminar mal. Mas veio o Tinga, ampliando, e a sala explodiu de novo — pra, minutos depois, quase parar de vez quando ele foi expulso numa marcação que ainda hoje deixa gosto ruim na boca. Segurei meu filho mais forte, sem nem perceber que estava fazendo isso.
O São Paulo empatou de novo. 2 a 2. E por um segundo, um segundo inteiro e cruel, a sala inteira parou enquanto minha cabeça fazia as contas devagar demais: quatro a três, quatro a três, era nosso, era nosso de verdade. Não foi alívio o que eu senti. Foi como se décadas de peso saíssem do corpo de uma vez, deixando um vazio estranho onde antes só existia aquele nó permanente no peito de torcedor de time que nunca tinha sido campeão continental.
Chorei sem vergonha nenhuma, na frente do meu filho, coisa que eu quase nunca fazia. Chorei pensando em quem não estava mais aqui pra ver aquilo, gente que morreu torcendo, esperando, sem nunca ter essa cena pra guardar. Chorei porque aquele time não era só um time bom. Tinha o Clemer segurando tudo atrás, o Bolívar e o Fabiano Eller não deixando ninguém respirar, o Alex e o Edinho costurando cada jogada, o Iarley correndo até não sobrar perna. Era a prova viva de que espera longa, quando bem vivida, vira coisa bonita.
E no meio de tudo, comandando com uma tranquilidade que nem parecia real, tinha o Abel Braga. Um homem que pegou talento espalhado e transformou em confiança coletiva, que segurou o peso de décadas sem deixar cair em cima de ninguém em campo. Foi ele quem ensinou aquele grupo a olhar pra um gigante do outro lado e não se assustar.
Vinte anos depois, ainda sinto o estômago apertar escrevendo isso. E o que eu mais guardo, sinceramente, não é nem o gol, nem o choro. É meu filho do meu lado, vendo o pai chorar de alegria por um time, sem entender direito o tamanho daquilo — mas entendendo, de algum jeito, que aquele momento importava. Hoje, quando a gente fala sobre aquela noite, é isso que a gente lembra junto.
Obrigado, Fernandão. Obrigado, Abel. Obrigado a cada um daquele elenco que transformou 97 anos de espera em uma noite que meu filho e eu carregamos dentro do peito até hoje.
Bola pra frente, Colorado.
Foto: Daniel Boucinha/Divulgação Inter
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