O trator, a vergonha e a gestão que insiste em errar no básico

Marcio Botelho, analista do Colorado Puro Sangue comenta sobre a partida.

O Inter voltou a ser notícia por um motivo que envergonha qualquer torcedor. Um trator oferecido como garantia numa dívida de R$ 30 mil. O caso do Inter, o trator e a garantia dívida resume o momento do clube fora de campo. E o pior: não é a primeira vez que isso acontece este ano.

Não dá pra tratar isso como um detalhe menor. O valor da dívida é pequeno. Mas o episódio expõe algo muito maior: a falta de organização de uma gestão que insiste em errar nos mesmos pontos. Um clube do tamanho do Inter, com orçamento robusto e torcida gigante, não deveria estar no noticiário nacional por causa de trator e garantia judicial.

Inter, o trator e a garantia dívida: um padrão que já incomoda

Um empresário venceu uma negociação em 2019. Ele cumpriu sua parte. Esperou o pagamento de uma comissão simples, ligada a metas do zagueiro Zé Gabriel. As primeiras parcelas até vieram, dentro do prazo combinado. Depois, veio o silêncio. Em seguida, uma renegociação. Mais adiante, o silêncio de novo. E agora, um trator John Deere na mesa como garantia, recusado pelo juiz responsável pelo processo.

Isso não é um caso isolado, infelizmente. Há poucas semanas, o Inter enfrentou risco real de transfer ban por causa de uma dívida com um clube de Gana, referente à contratação do volante Arhin. O valor também era pequeno perto do orçamento do clube. Mesmo assim, a solução mais simples — pagar em dia — não aconteceu. Só depois de muita pressão da imprensa e da torcida o caso foi resolvido.

Um padrão está se formando, e ele é perigoso para a imagem do clube. Comissões de empresários atrasadas. Dívidas internacionais mal resolvidas. Agora um bem rural oferecido como garantia num processo envolvendo futebol profissional. Cada episódio, isoladamente, parece pequeno diante do tamanho do Inter. Juntos, porém, formam um retrato incômodo de desorganização financeira que se repete com frequência preocupante.

O básico que falta na gestão da dívida do Inter

O torcedor colorado não está cobrando milagre nem gestão perfeita. Está cobrando o básico: pagar o que se deve, no prazo combinado, sem depender de decisão judicial pra isso. Assim se evitam processos, desgaste de imagem, e o nome do Inter estampado ao lado da palavra “trator” nos noticiários esportivos do Brasil inteiro, virando piada em redes sociais e programas de rádio.

Enquanto isso, o clube tenta negociar reforços como Alex Arce e Niclas Eliasson. Tenta se apresentar como um projeto sério, ambicioso, disposto a brigar lá em cima na tabela. Mas como confiar nesse projeto quando o dia a dia mostra o oposto? Como esperar seriedade numa negociação de milhões quando falta seriedade pra pagar R$ 30 mil a um empresário que já cumpriu a parte dele havia anos?

Essa contradição pesa. De um lado, o discurso de ambição esportiva. Do outro, uma gestão que tropeça em compromissos financeiros simples, do tipo que qualquer empresa organizada resolve sem chegar à Justiça. É esse contraste que mais incomoda quem acompanha o Inter de perto.

Vergonha que passou da conta com o trator e a garantia da dívida

É esse o problema real por trás do caso do Inter,o trator e a garantia dívida. Não é vergonha só por causa do valor, afinal R$ 30 mil é pouco pra um clube desse porte. É vergonha por causa do padrão que se repete. Ela também vem porque o escudo do Inter merece uma gestão que trate compromisso financeiro como prioridade, não como aborrecimento a ser empurrado com o pé até virar processo.

A torcida colorada é gigante, apaixonada, e paga ingresso, sócio-torcedor e produtos oficiais todo mês, sustentando o clube na prática. Por isso, ela tem o direito de exigir mais. Merece não ver o nome do Inter associado, repetidas vezes, a processos por dívidas pequenas, resolvidas de forma tardia e desajeitada. E pode, sim, cobrar planejamento básico de quem administra o dinheiro do clube.

Vale lembrar de outro ponto importante. Times rivais também enfrentam dificuldades financeiras de tempos em tempos, e isso não é exclusividade do Inter. Chama atenção, porém, a frequência com que o nome do clube aparece nesse tipo de notícia, num intervalo curto de meses. Não se trata de um erro pontual, mas de um padrão de gestão que precisa ser corrigido com urgência, antes que vire marca registrada do clube fora de campo.

Fica o recado pra diretoria: organize a casa antes de sonhar alto. O resto — o time, o ataque, os reforços badalados — só ganha sentido de verdade quando a base financeira do clube para de tropeçar nas próprias pernas. Enquanto isso não acontecer, o Inter vai continuar sendo notícia pelos motivos errados, e a torcida vai continuar pagando essa conta com vergonha alheia.

Crédito: Arquivo pessoal / Colorado Puro Sangue