Crise de gestão no Grenal expõe o momento delicado da dupla Gre-Nal

Jogadores de Internacional e Grêmio disputam bola no Grenal, marcado pela crise de gestão no Grenal

Mais um Grenal na vida da gente, viu. Só que dessa vez, cá entre nós, a crise de gestão no Grenal fica evidente antes mesmo da bola rolar.

Amanhã, quinta-feira, Inter e Grêmio se encontram às 20h no Beira-Rio, pela ida das quartas de final da Copa do Brasil. Sejamos sinceros: chegamos a esse duelo com uma sensação estranha, quase de resignação.

Um Grenal diferente antes da bola rolar

Basta olhar a tabela oficial da CBF pra entender o tamanho do problema. Depois da 24ª rodada, Inter e Grêmio aparecem empatados com 25 pontos, apenas um à frente do Mirassol, primeiro time da zona de rebaixamento.

Dois clubes gigantes, cara. Dois clubes que carregam décadas de história, títulos nacionais e conquistas continentais. Ainda assim, vivem às voltas com dificuldade financeira e uma sequência de decisões equivocadas que colocaram a dupla nessa situação.

O Inter chega de sequência de empates no Brasileirão, incluindo o 0 a 0 contra o Atlético-MG. Por outro lado, o Grêmio vem de derrota pro Bragantino fora de casa. Nenhum dos dois lados chega embalado pro clássico.

Antigamente, um Grenal desses seria sinônimo de expectativa, de gente contando os dias no calendário. Hoje, no entanto, convenhamos, virou motivo de ansiedade — não pela empolgação, mas pelo medo de apanhar do rival.

Ainda me lembro de um tempo em que o visitante entrava em campo com respeito, quase com medo do que ia encontrar pela frente. Hoje, por sua vez, entra calculando o resultado antes mesmo de a bola rolar.

São 452 clássicos disputados até aqui, com 166 vitórias coloradas, 143 do Grêmio e 143 empates, segundo o retrospecto histórico completo do confronto. Portanto, é uma rivalidade centenária, cheia de história, que amanhã completa mais um capítulo em meio a essa fase ruim dos dois lados.

Quando comemorar a permanência virou normal

Não é força de expressão dizer que boa parte da alegria colorada e tricolor, nos últimos tempos, vem apenas do tropeço do outro lado. Um perde, o outro respira. Um cai, o outro sobe uma posição na tabela. É triste, mas é real.

Além disso, virou rotina comemorar permanência na primeira divisão como se fosse título. Há alguns anos, isso seria impensável pra quem torce pro Inter ou pro Grêmio. Hoje, entretanto, é o objetivo declarado de boa parte da temporada.

Os times que antes impunham respeito a qualquer visitante hoje são recebidos quase como alívio pelos adversários. Assim, o time visitante chega sabendo que, com um pouco de organização, sai daqui com os três pontos ou com a classificação embaixo do braço.

Dói escrever isso, cara. Mas fechar os olhos pra realidade não muda o que a gente vê dentro de campo, jogo após jogo, mês após mês. Ao mesmo tempo, sei que boa parte da torcida sente exatamente a mesma coisa, mesmo sem colocar em palavras.

Vale lembrar que a Copa do Brasil ainda é uma chance real de reação pra qualquer um dos dois lados. Um mata-mata tem regras próprias, e um resultado positivo amanhã pode mudar o humor da torcida rapidamente. Isso, contudo, não apaga o retrospecto recente de nenhum dos dois.

O Beira-Rio deve estar cheio amanhã, como sempre fica em noite de Grenal. Nesse contexto, a torcida colorada tem o papel de empurrar o time mesmo sabendo das dificuldades da temporada — é isso que a camisa pede, ano após ano.

A crise de gestão no Grenal e a esperança que sobra

Ainda assim, tem Grenal amanhã. Isso, por si só, já mexe com qualquer coração gaúcho — o meu incluso. Nesse sentido, talvez a maior vitória possível seja simplesmente não ser goleado pelo rival.

Que a bola nos perdoe amanhã, porque o momento de ambos os lados não permite otimismo exagerado. Prefiro torcer por um resultado digno a prometer uma exibição de gala que a realidade do time não sustenta hoje.

Por outro lado, é impossível não pensar se esse modelo de gestão, repetido há anos nos dois clubes, ainda tem espaço no futebol atual. Enquanto rivais de outros estados se profissionalizam, investem em base e planejamento, a nossa dupla segue trocando comandante e apagando incêndio.

Consequentemente, o resultado é o que vemos hoje: dois gigantes brigando pra não cair, em vez de brigar por títulos de novo. E isso não é coisa de um ano só — é sintoma de um problema estrutural que se arrasta há tempo.

Inclusive, vale lembrar que times de menor tradição no país já superam Inter e Grêmio em organização financeira e planejamento esportivo. Isso deveria doer mais do que qualquer derrota isolada dentro de campo.

Portanto, entro nesse Grenal torcendo, como sempre torci desde criança. Entro também com os pés no chão, sabendo que o adversário de amanhã veste azul, preto e branco — mas o inimigo maior é a gestão que colocou a gente nessa situação.

Que o Beira-Rio empurre o time pra uma vitória que devolva um pouco de orgulho pra torcida colorada. E que sirva de alerta pra quem administra o clube: a paciência do torcedor tem limite, mesmo em tempos difíceis como esse.

No fim das contas, o escudo no peito continua sendo o mesmo, mesmo quando a gestão por trás dele decepciona.

Bola pra frente, Colorado.

Foto: Lucas Uebel/GremioFB

Dados consultados: situação do Inter e do Grêmio após a 24ª rodada do Brasileirão (Um Dois Esportes) e retrospecto histórico do Grenal com 452 jogos disputados (Olympics.com Brasil).