44ª escalação diferente do Inter expõe o dilema de Pezzolano

Jogadores do Inter durante treino antes de Pezzolano definir a 44ª escalação diferente

A 44ª escalação diferente do Inter sob o comando de Paulo Pezzolano deve entrar em campo neste domingo, contra o Santos. O número, segundo apurou a jornalista Lauren Berger, resume bem o momento de instabilidade do Colorado.

Um treinador que quase nunca repete o time

Em praticamente toda rodada, Pezzolano muda pelo menos uma peça do time titular. Ao todo, são 44 formações diferentes até aqui, um número alto até para os padrões do futebol brasileiro.

O uruguaio repetiu o mesmo time titular em apenas duas ocasiões. Nas duas vezes, aliás, o resultado favoreceu o Inter.

No Gauchão, ele manteve a base que goleou o Inter de Santa Maria por 4 a 2. Em julho, também repetiu o time que vinha de empate com o Flamengo para bater o Corinthians por 2 a 0, resultado que abriu vantagem nas oitavas da Copa do Brasil.

Fora dessas duas exceções, contudo, a régua tem sido sempre a mudança. Cada rodada trouxe, de alguma forma, uma peça nova ou uma função diferente dentro de campo.

Bernabei fora abre mais uma vaga

Para o duelo com o Santos, o time muda de novo, e não só por opção do treinador. Alexsandro Bernabei cumpre suspensão automática após o terceiro cartão amarelo e vira desfalque certo.

Com isso, Vitinho e Carbonero retornam à equipe titular no ataque. Sanabria e Thiago Maia, como já era esperado, também devem começar jogando.

Na prática, portanto, o Inter chega ao jogo com boa parte do time novamente reformulado. É a rotina que se repete desde o início do trabalho de Pezzolano no Beira-Rio.

Vale lembrar que a rotatividade não é exclusividade do ataque ou do meio-campo. A defesa também já passou por diferentes combinações ao longo do ano, o que dificulta ainda mais a criação de entrosamento entre os setores.

Villagra e Alan Patrick, por exemplo, seguem como praticamente as únicas presenças fixas no meio-campo nas últimas rodadas. O restante do time, contudo, tem sido moldado praticamente jogo a jogo.

Desconforto nos bastidores

A troca constante de peças, no entanto, não agrada a todos dentro do clube. Segundo apurado, existe um desconforto interno com a falta de um modelo de jogo mais fixo.

Os jogadores, ao que tudo indica, sentem dificuldade em criar entrosamento quando a base do time muda quase toda semana. Isso, de certa forma, ajuda a explicar a irregularidade de resultados do Colorado neste Brasileirão.

Questionado sobre uma possível crise no vestiário, depois da eliminação para o Grêmio, Pezzolano foi direto: “não tem nada estranho”, garantiu o treinador em coletiva de imprensa.

Ele também negou que os jogadores estivessem reclamando das trocas constantes na escalação. Segundo o próprio comandante, o grupo segue unido e trabalhando normalmente nos treinos.

Um ciclo difícil de romper

Ainda assim, o discurso oficial esbarra numa realidade difícil de esconder. Um time que muda praticamente toda semana raramente constrói o tipo de identidade que costuma vir acompanhada de resultados consistentes.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer o contexto: lesões, suspensões e a necessidade de reagir depois de derrotas forçam parte dessas mudanças. Nem toda alteração, portanto, nasce de uma escolha livre do treinador.

De qualquer forma, o padrão chama atenção pela repetição. Passar de 40 escalações diferentes em uma única temporada é sintoma de um time que ainda não encontrou sua versão ideal.

Esse tipo de gestão, por sinal, tem prós e contras. Se por um lado permite ajustes rápidos contra adversários específicos, por outro dificulta que o grupo desenvolva automatismos coletivos ao longo da temporada.

O calendário, aliás, não perdoa quem ainda está em busca de uma identidade. Restam poucas rodadas de Brasileirão, e cada ponto perdido pesa cada vez mais na luta contra o rebaixamento.

Nesse cenário, a pressão sobre Pezzolano cresce em duas frentes ao mesmo tempo. De um lado, o resultado dentro de campo; de outro, a cobrança por um modelo de jogo mais consistente.

O próprio treinador, dessa forma, parece preso num ciclo difícil de quebrar. Trocar demais o time impede a criação de entrosamento, mas manter o time como está, diante dos resultados recentes, também parece arriscado.

Análise Colorado Puro Sangue

Quarenta e quatro escalações diferentes não é detalhe, é diagnóstico. Um treinador só muda tanto assim quando ainda não achou a fórmula, e isso, por si só, já diz muita coisa sobre esta temporada.

O curioso é que, das duas vezes em que Pezzolano confiou no mesmo time, o resultado veio positivo nas duas. Ainda assim, ele insiste em mexer, mesmo quando talvez não devesse.

A fala sobre não existir crise no vestiário, por outro lado, é natural vindo de um treinador pressionado. Nenhum técnico admitiria o contrário faltando poucas rodadas para o fim do Brasileirão.

Enquanto isso, o torcedor colorado segue tentando entender qual é, de fato, o Inter ideal que Pezzolano busca. Depois de 44 tentativas diferentes, a resposta ainda não apareceu com clareza dentro de campo.

No fim, a expectativa em torno do duelo com o Santos também carrega esse pano de fundo. Além do resultado em si, o torcedor quer ver sinais de que existe, enfim, um caminho mais claro sendo construído.

Foto: Ricardo Duarte / Internacional